Quando o excesso de informação faz mal ao escritório
Juan Peixoto em 29 de Novembro de 2009 @ 17:00
Quando o excesso de informação faz mal ao escritório
Lucy Kellaway
27/11/2009
A administração tradicional morreu. A internet matou o sistema de comandar e controlar. Agora que todo mundo pode analisar e ridicularizar qualquer movimento do presidente da empresa quase antes dele ter se mexido, ficou impossível dar ordens para as pessoas.
Esse ponto de vista é levado adiante por Carol Bartz, a nova presidente da Yahoo, na edição especial “O Mundo World em 2010″ da revista “The Economist”. Ele soa plausível e por um segundo fui levada a pensar que talvez o “Niagara de informação” realmente mudou a administração para sempre. Mas então, eu olhei à minha volta. Vi muitas pessoas em suas mesas fazendo tranquilamente o que elas são pagas para fazer: trabalhar.
O comandar e controlar não morreu e nunca morrerá. Chefes ainda são chefes. Se o meu me pedir para fazer alguma coisa, vou levantar o traseiro e fazer. Se os funcionários de Bartz não cumprem uma ordem dela, há um problema- e isso não tem nada a ver com a internet.
Ela está certa ao dizer que o volume de informações disponíveis muda a maneira como as companhias são administradas e a forma como nos comunicamos uns com os outros. Mas parece que a única linha de comunicação que não mudou é a que existe entre os chefes e seus subordinados. Todas as outras foram distorcidas e abafadas pela quantidade enorme de informações que há por aí.
Nas duas últimas semanas, me deparei com duas maneiras como as companhias estão gerenciando isso - e ambas são bem preocupantes.
A primeira veio de uma amiga que trabalha no setor de comunicação para uma grande empresa. Ela percebeu que os funcionários não estão respondendo ao excesso de informações digerindo grande parte delas, e sim parando de digerir qualquer coisa. Ela me disse que em sua companhia a palavra escrita perdeu quase todo o seu poder. Ninguém lê mais e-mails- com exceção daqueles que são enviados pelo chefe. As mensagens vindas de qualquer outra pessoa são deletadas sem serem lidas ou são olhadas de relance e depois ignoradas. As mensagens colocadas no Twitter têm um impacto um pouco maior, mas 140 caracteres parecem ser muita coisa para algumas pessoas e a grande quantidade de mensagens significa que muitas erram o alvo.
A resposta dessa amiga é deixar de lado a palavra escrita e em vez disso transmitir mensagens simples em vídeos curtos. Ao assistir esses fragmentos, me deu vontade de rir. Eis aí uma mulher formada pela Universidade de Cambridge falando como se fosse uma apresentadora de programa de TV infantil com um sorriso amalucado no rosto. A câmera a mostra passando uma mensagem simples e alto astral, antes de mudar para um homem que escreveu a mesma mensagem- “Mantenha as coisas simples” - em um quadro de apresentações com um pincel piloto.
Não será isso uma coisa um pouco arrogante?, perguntei. É bem possível, respondeu ela. Mas como as pessoas parecem estar prestando atenção, ela não liga.
Outras empresas decidiram lidar com a quantidade enorme de informações desistindo de qualquer tentativa de gerenciá-las, sob a alegação de que isso custa muito caro. Desde que a recessão começou, muitas fecharam suas bibliotecas e voltaram a tesoura para as divisões de gerenciamento de conhecimentos, estabelecidas com muito orgulho e otimismo uma década atrás. Em uma grande consultoria, todas as pessoas que costumavam classificar informações em blocos, que depois poderiam ser usados, foram demitidas. Os consultores foram informados que teriam que “cuidar sozinhos de suas necessidades de conhecimento.”
É quase certo que isso é um erro. Cuidar de suas próprias necessidades de informação é uma coisa em que a maioria de nós é bem ruim. É por isso, aponta Bartz, precisamos de líderes empresariais que não só nos dirão o que fazer, como também nos ajudarão a saber o que pensar.
Bartz afirma que, para se fazer isso com sucesso, os líderes precisam adquirir duas habilidades. Primeiro, eles precisam prestar mais atenção nas coisas do que antes. Não estou certa sobre o significado disso. O problema com a era da informação é há muitas pessoas se comunicando simultaneamente. Os líderes certamente não precisam prestar mais atenção, e sim ignorar mais as coisas. Mais do que nunca, o bom líder certamente precisa aprender como se tornar um surdo seletivo.
A segunda habilidade é encontrar uma maneira de lidar com as muitas coisas bestiais que são escritas sobre eles na internet. Seria bom se pudéssemos esperar que os líderes respondam no futuro de maneira madura à essa onda de críticas públicas, mas não vou esperar por isso. Como não posso encontrar essa tendência em mim mesma, sou pessimista quanto a encontrá-la em outras pessoas. Há muitas coisas terríveis escritas sobre mim na internet e embora eu ouse dizer que deveria procurá-las, lê-las e aprender com elas, não vou fazer isso. Vou tapar os ouvidos e seguir em frente.
Lucy Kellaway é colunista do “Financial Times”. Sua coluna é publicada quinzenalmente na editoria de Carreiras.
Fonte: Valor Econômico
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