(14/5/2008 às 09:15) - Perigos de endividar-se cedo
A idade pode ser pequena, mas a divida é de gente grande. Com apenas 18 anos, a estudante Ana já somava uma dívida que ultrapassava os R$ 5mil. Titular de uma conta universitária desde os 17 anos, a carreira de inadimplente começou cedo e com os cheques pré-datados, que logo se tornariam cheque sem fundo. O aperfeiçoamento em contrair dividas viria com uma ferramenta ainda mais poderosa: o cartão de crédito. Salva pelo socorro do pai, a estudante escapou de ter seu nome enviado ao Serviço de Proteção ao Credito (SPC), mas muitos jovens não têm a mesma sorte e engrossam a participação das pessoas de até 30 anos entre os consumidores com nome sujo na praça. A facilidade de acesso ao crédito, aliada a falta de uma cultura financeira e aos apelos de consumo, forma uma equação perigosa ao bolso de quem está aprendendo a gastar.
Depois da experiência desastrosa, o banco foi o primeiro a negar o recurso dos cheques, e quando tornou a liberar o uso desta forma de pagamento, foi a própria cliente que rejeitou a oferta. “Eu passava diversos cheques e esquecia quando iam bater. Eu tinha 18 anos e pouco tempo de conta. Meu pai depositava tudo. Então para essas dividas eu só prescisava falar com ele,” conta Ana.
Limite Elevado.
O cartão de crédito viria aos 20 anos e apesar de não ter sido solicitada qualquer comprovação de renda, o limite era de R$ 2 mil. Mas para os gastos, da estudante não houve limites, e como o cartão não fosse bloqueado ao atingir esse valor, logo a dívida atingiria o montante de R$ 3860. “O (departamento) jurídico (da administradora) do cartão que me ligava, sempre com muitas ameaças de colocar meu nome no SPC, até que eu negociei o pagamento da dívida em dez meses”, lembra.
No entanto, os episódios não foram suficientes para que a estudante desenvolvesse uma cultura financeira mais responsável. “Ainda não sei controlar meu dinheiro. No ano passado esqueci de pagar duas contas de celular e a operadora também ameaçou colocar meu nome no SPC,” acrescenta Ana.
A estudante deu somente uma pequena contribuição a um grupo que aumenta cada vez mais a sua participação entre as pessoas endividadas e com valores cada vez mais altos. Entre os consumidores listados no SPC da Câmara de Dirigentes Lojistas do Rio (CDL-RIO) com idade até 30 anos, a maioria (37,9%) tem renda mensal de R$ 380 a R$ 760. A divida foi contraída na aquisição de roupas e calçados por 31% dos consumidores jovens, sendo o celular o segundo o produto a levar mais pessoas a ficarem no vermelho, cerca de 20,7% dos endividados.
Os Cartões oferecidos pelas próprias lojas foram o vilão para a maioria, 37,9% ficaram inadimplentes com o uso do recurso de crédito. Os dados do SPC apontam ainda que no ano passado menores de 20 anos correspondiam a 7% dos nomes ‘sujos’, quando em 2002 esse numero era de apenas 2%. De acordo com a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), 65% das pessoas menores de 21 anos estão devendo para as operadoras de cartões de crédito. E não é tudo. Pesquisa divulgada pela empresa Telecheque revela que essa faixa etária representa 16% dos inadimplentes de cheque sem fundo.
Mostra.
O estudo Target Group Index, realizado pelo Ibope Mídia com 63 milhões de pessoas de 12 a 64 anos, das classes AB, C, e DE, nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Brasília e nos interiores de São Paulo e das regiões do Sul e Sudeste, mostrou que 61% dos jovens entrevistados com idade entre 18 e 25 anos “gostariam de economizar dinheiro, mas acham difícil” e 36% da mostra admitiram “ter tendência a gastar dinheiro sem pensar”.
A tendência de descontrole financeiro entre os consumidores ainda tão novos mostra que educação financeira também se aprende em casa, assim como higiene pessoal e cuidados alimentares. Pelo menos é nos que acredita a executiva americana Neale Godfrey, autora do livro “Dinheiro não dá em árvore” (Money Doesn’t Grow on Trees, editora jardim dos Livros). Para ela é durante a infância e o inicio da adolescência que os pais devem transmitir as crianças e jovens conceitos essenciais para uma futura vida financeira saudável.
“Educação financeira pode ser comparada com lições de direção de automóveis. Seus filhos não devem aprender a dirigir com o veiculo já em mãos. A educação sobre veículos deve ser passada antes de eles dirigirem. O mesmo pode ser dito sobre os meios financeiros. Os filhos devem compreender que ao usar o cartão de crédito, eles devem ter reservado o dinheiro para a fatura. Com um limite de US$ 2 mil e juros de 15% se for pago somente o valor mínimo da fatura, a dívida será saldada em mais de dez anos. A dívida do cartão de crédito torna-se uma espécie de hipoteca, com o valor ultrapassado e mais de três vezes os gastos originais com as compras”, compara a autora.
Lições.
Especializada em finanças, Neale foi executiva chefe do Chase Manhattan Bank, presidente do The Firt Women’s Bank e hoje é a principal executiva da instituição Children’s Financial Network, voltada para economia infantil e juvenil. Mãe de dois filhos, ela aplicou em seu próprio lar os conceitos desenvolvidos no trabalho. “Crianças a partir de três anos já devem entrar em contato com conceitos básicos da vida econômica, conceitos como ganhar, poupar e gastar dinheiro com consciência”, escreve em seu livro. E a autora deixa claro: o bom exemplo deve partir de casa.
Mas como desenvolver uma cultura financeira responsável quando os pais estão naquela outra parcela, a de inadimplentes com mais de 30 anos? Não conseguir equilibrar as facilidades de acesso a crédito aos recursos reais para quitar as dívidas contraídas não é privilégio apenas dos mais novos. Uma alternativa de solução para esse problema seria uma abordagem mais enfática de educação financeira no mesmo ambiente em que crianças e adolescentes aprendem também a ler e escrever. E o bom exemplo partiria também nas escolas.
Escolas.
Reinaldo Domingos autor do livro Terapia Financeira (Editora Gente), aposta no potencial das escolas como um importante aliado à mudança da cultura financeira dos brasileiros. Para ele, um jovem bem informado sobre o mercado pode se tornar também um multiplicador destes conceitos junto à família ou aos amigos. “Está cada vez mais comprovado que nós tendemos, a reproduzir o modelo financeiro dos nossos pais. Um jovem educado financeiramente, mais do que romper como uma tradição, uma repetição de uma relação irresponsável com o dinheiro, pode também transformar os hábitos desta família”.
Para Domingos, pais que assumem as dívidas contraídas pelos filhos, como aconteceu à estudante Ana, estão ratificando nos filhos e seus próprios maus hábitos de consumo. O autor ensina que a educação financeira está muito além dos domínios matemáticos, de conhecer as propriedades de cada produto financeiro, de saber negociar dividas, tudo começaria pela mudança de comportamento. “É fundamental aos jovens entender o preço que se paga por querer realizar os sonhos com imediatismo, é necessário ensinar como é mais motivante poupar quando se tem um objetivo claro para aquela reserva, e até mesmo incentivá-los a buscar uma verba auxiliar, mesmo que a titulo de aprendizado, para que já desenvolvam a capacidade de consumir com responsabilidade”, alerta do especialista.
Fonte: Jornal do Comércio